07 Maio, 2013

O incompreendido Cardozo



É certo que nem só de golos vive um avançado - concordo -, mas ter uma quantidade respeitável de golos marcados normalmente é meio caminho andado para cair nas graças dos adeptos. Estranhamente, para Óscar Cardozo as coisas parecem ser diferentes. 
Se normalmente para um adepto um avançado que até jogue bem e seja produtivo em todos os aspectos menos na altura de facturar não enche as medidas - que o digam Nuno Gomes e Postiga -  para citar portugueses -, o oposto parece não fugir muito disso mesmo: um avançado que se limite a ser o melhor marcador da equipa e a resolver jogos pela sua capacidade de finalização não basta. Pelo menos é isso que tem acontecido com Óscar Cardozo. Não parece importar muito o facto de ser, de muito longe, o ponta de lança com mais golos marcados das últimas décadas no SLB, de ser preciso recuar a 1989/90 e a Magnusson para superar a sua impressionante marca de 38 golos numa única época em 2009/2010, de ser o melhor marcador estrangeiro da história do Benfica... Ainda que amado nos momentos inevitáveis (e que a fase de maior desagrado esteja agora esquecida), Cardozo continua a deixar parte dos benfiquistas a suspirar por mais. 
Para mim - que sou portista - é incompreensível que Cardozo não seja idolatrado no seu clube. É um ponta de lança letal, que tem as suas limitações como qualquer outro ponta de lança. Suárez, Villa, Lewandovski e Van Persie são excepções, não há muitos desses por aí. Penso que Cardozo merecia um pouco mais de carinho, já fez mais do que suficiente para o merecer. Fica aqui a minha homenagem.

Frederico F. Silva

Blogger Tricks

05 Maio, 2013

E Ghilas aqui tão perto



O Moreirense está actualmente no último lugar da classificação mas tem, no seu plantel, uma das grandes revelações da Liga Portuguesa.

Nabil Ghilas, avançado, 23 anos, tem dado imenso trabalho aos defesas adversários com a sua velocidade, potência física, qualidade técnica. Tanto pode jogar sozinho, como descaído na ala. Os grandes portugueses não podem deixar escapar a oportunidade.

Ghilas não vai ser jogador do Moreirense na próxima época, isso é certo. Qual será o melhor destino para o jovem avançado? Do ponto de vista dos clubes, quer Benfica, quer Sporting, quer Porto, quer Braga e até o Guimarães veriam com bons olhos a chegada de Ghilas. Mas do ponto de vista do avançado não é indiferente sair para qualquer clube.

No Benfica, se este não vender nenhum dos seus avançados, Ghilas terá pouco espaço para jogar e evoluir. No Sporting, pode facilmente ser titular e triunfar mas está dependente do sucesso desportivo do clube, que passa por um período de grande instabilidade. Se optar pelo Braga ou Guimarães não estará a retroceder e poderá ser um bom teste às suas capacidades em clubes que lutam por vitórias. Sobra o Porto.

Para mim seria a melhor escolha que o avançado faria. Primeiro, porque se encaixa no habitual 4-3-3 do clube, mesmo com Jackson Martinez a titular. E caso o treinador da próxima época opte por um sistema diferente, Ghilas e Jackson formariam uma dupla muito forte. Depois, parece que o clube está a apostar novamente no mercado interno, tendo em conta as opções financeiras que terá forçosamente que adoptar no futuro próximo. Ghilas é barato quando comparado com outros alvos. E por último, neste clube há um passado muito forte ligado a outro avançado argelino, Rabah Madjer. 

Segundo a imprensa, é o Sporting que possuí o direito de preferência na aquisição de Ghilas. Se se concretizar, será um bom trunfo para o clube leonino se reabilitar. 

Independentemente da escolha do avançado, parece importante realçar um aspecto: se os clubes portugueses não segurarem este avançado poderão arrepender-se daqui a dois/três anos. 

Por Pedro Fragoso

04 Maio, 2013

Michael Owen - a retirada e aquele golo



Se eu escrever: 22 de Junho de 1986, Cidade do México - todos os amantes do futebol dirão, em uníssono, Maradona. Se eu escrever: 30 de Junho de 1998, Saint-Etienne - todos os amantes do futebol dirão, em uníssono, Michael Owen.

O pequeno inglês prepara-se para arrumar as botas e retirar-se. Após 16 anos de futebol profissional, o que fica da sua carreira?

Fica, sobretudo, aquele golo nos oitavos do França 98. O resto, foi uma carreira de muitos baixos, com lesões, muitas mudanças de clube que não fizeram dele nenhum ídolo pelos clubes onde passou - Liverpool, Real Madrid, Newcastle, Manchester United ou Stoke City. 

Em Liverpool, fez dupla com Fowler ou Heskey, aterrorizando adversários e coleccionando títulos - menos o da Premier League. Curiosamente, na final dos nove golos contra o Alavés não marcou nenhum. A sua saída para Madrid foi mal pensada - na época seguinte o Liverpool ganhou a Champions. 

Em Madrid, Newcastle e Manchester foi perseguido pelas lesões, nunca mais podendo demonstrar o killer instinct que possuía. Daí que o anúncio da sua reforma possa ser comparado ao anúncio da morte de Michael Jackson. Quando o cantor morreu, todo o mundo descobriu que ele ainda estava vivo. Quando Owen decidiu terminar a carreira, o mundo do futebol descobriu que ele ainda jogava.

Mas voltemos a 1998. Aquele slalom, aquele golo, aqueles dez segundos mágicos que ficarão para sempre na memória dos verdadeiros adeptos de futebol. Eu sei onde estava nesse momento e pude ver esse golo no ecrã gigante da praça sony da Expo 98, em Lisboa. 

Foi sobretudo com a camisola branca de Inglaterra que Owen construiu o seu mito. Todos sabemos o poder que o Campeonato do Mundo tem e aquele golo - de que nada serviu - é um dos dez melhores momentos dos torneios contemporâneos. Pela idade, pelo jogo, pelo golo. Quatro anos mais tarde ainda alimentou o sonho inglês frente ao Brasil mas a classe canarinha veio ao de cima. No apuramento para o Mundial do Extremo Oriente, está ligado a uma das mais belas páginas da selecção inglesa: a vitória em Munique por 1-5, com três golos de Owen.

Como disse alguém, Owen deixou poucas marcas no futebol. Mas a que deixou, foi mais do que suficiente para lhe agradecermos do fundo do coração.

ps: a retirada de Owen lança também um debate interessante no futebol conteporâneo: ainda há avançados puros? Recordemos que Owen - apesar de alinhar quase sempre com o número 10 nas costas, tinha pouco de criador de jogo, era sobretudo um finalizador. 

Por Pedro Fragoso

Estado de graça (?)

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De cada vez que vejo Vítor Pereira actuar em plena sala de imprensa, não consigo evitar deixar escapar uma ou outra lembrança associada a José Mourinho, o homem que um dia disse começar a ganhar os jogos a disputar, ainda no briefing de imprensa. Ora, assim sendo, não posso deixar de prestar uma espécie de vénia a todo e qualquer jogador que veste de azul e branco, nomeadamente, pelas contínuas recuperações anímicas e no próprio marcador, que praticamente a cada jogo, ousam encetar, ainda e apesar dos «tiros» na própria «navegação» dados, a cada passo, pelo homem que os comanda, bem antes de as partidas sequer terem inicio.

A forma como o técnico portista procurou compor um aviso à navegação durante a conferência de imprensa de lançamento de hostilidades diante do Vitória de Setúbal, apelando à força das gentes do Norte, trouxe-me ainda mais certezas relativamente ao presente estado do espinhense: Vítor é, neste momento, um homem solitário. Não o será, obviamente, em termos de origens, já que no plantel às suas ordens, é o gondomarense Castro, e ninguém mais, quem acompanha o timoneiro, em todo o fervor devotado à lógica regionalista.

É, contudo, na forma quase pateta como procura juntar as tropas, resgatando uma aparentemente adormecida comunhão entre si e/ou os jogadores e os mais devotos defensores da «causa azul» - os adeptos -, na maneira como vibra e vive cada incidência de jogo ou ainda, e mais estruturalmente, na forma como parece (não) ter-se ingerido na lógica de contratações recentes, que Vítor parece insistir em percorrer as suas últimas pisadas enquanto treinador do F.C. Porto, da forma mais tristonha e solitária.

Com o derradeiro título possível ainda perfeitamente ao alcance, mas, invariavelmente, de malas feitas, talvez se possa aconselhar o antigo adjunto de Villas-Boas a iniciar uma bela duma reabilitação competitiva, quem sabe, ao serviço de um clube de dimensões mais modestas que o actual campeão nacional. Talvez desta forma, de alma e motivações recauchutadas se possa reconhecer o (re) aparecimento do verdadeiro Vítor Pereira.

Por Francisco Esteves

22 Abril, 2013

O Bayern de Heynckes



Um apaixonado pelo futebol ganha noção de que algo vai realmente mal neste desporto quando um treinador é campeão nacional numa liga altamente competitiva, chega a uma final da Liga dos Campeões, vai isoladíssimo em primeiro lugar no campeonato (à altura ainda não era campeão), constrói uma equipa fantástica que pratica bom futebol e cumpre todas as expectativas e ainda assim lhe dizem que tem os dias contados no clube. É esse o caso de Jüpp Heynckes.
O que o Bayern está a fazer ao seu treinador é uma grade injustiça e, mais do que isso, um enorme risco para o futuro, dada a incógnita do que será Guardiola fora do Barcelona - eu que até acredito que é um treinador cheio de qualidade - e da parvoíce que seria pôr o Bayern a tentar jogar como o Barcelona, sobretudo depois de já ser tão bom a fazer o que faz.
Aparentemente o que está aqui em causa é o fenómeno da contratação por "venda de camisolas" alargado aos treinadores, deixando de importar se estes estão ou não a fazer um bom trabalho. Correm sempre o risco de alguma "personalidade" ficar desempregada e destruir tudo aquilo que vieram a construir.
O Bayern está nas meias finais da Liga dos Campeões após ter eliminado a brilhante Juventus. Na Bundesliga é campeão desde 6 de Abril e neste momento tem uns absurdos 20 (!) pontos sobre o segundo classificado. Se isto não chegar posso acrescentar que tem um goal average de 75 (!!!) golos, quase o dobro da segunda melhor equipa. Mas nada disso importa porque Guardiola é Guardiola e por isso não faz mal desrespeitar-se todo o trabalho e tudo o que Heynckes conquistou e poderá ainda conquistar. 
Gosto muito de Guardiola e tenho confiança nas suas capacidades mas duvido que alguma vez construa um Bayern melhor do que o de Heynckes e torcerei até ao final da Liga dos Campeões pelo treinador alemão para que se valorizem os treinadores ambientados, conhecedores do clube, altamente competentes como é o seu caso.
Independentemente do que acontecerá, é de destacar o enorme profissionalismo de Heynckes que apesar de todas as faltas de respeito por parte do clube e da imprensa de que tem sido alvo, continua a fazer um excelente trabalho, como se não estivesse condenado à saída há tanto tempo.

Frederico F. Silva

21 Abril, 2013

Ode a Cristiano



Esqueçamos, por uns momentos, o quão bimbo é Cristiano Ronaldo. O quão azeiteiro, pedante, convencido, vaidoso, pretensioso ele é - se quiserem mais adjetivos é só procurar num belo dicionário. Esqueçamos, também, toda a Cristianomania que os media portugueses - e agora os espanhóis - espalham por tudo o que é noticiário, publicidade, programas rascas de televisão, páginas de jornais, publicações nas redes sociais. Esqueçamos, igualmente, a postura chauvinista, parola e bacoca na abordagens dos jornalistas desportivos quando Cristiano está em campo. E voltemos a esquecer, porque é difícil e eu insisto, a personalidade de Cristiano. Já está? 

Óptimo, assim já eu posso escrever as próximas linhas e muitos de vocês lerem descansados o texto sem me insultarem. É que, se eu não esquecer o conteúdo do primeiro parágrafo, apetece-me ser argentino e blaugrana até às unhas dos pés. Adiante.

Cristiano Ronaldo é um monstro do futebol. A cada jogo, a cada mês, a cada título, a cada época que passam o homem insiste em calar-me com exibições tremendas, golos, assistências, performances a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e incríveis. Eu sempre me convenci que o fenómeno Cristiano duraria duas ou três épocas. Engano meu. 

Olhemos com atenção para os últimos fenómenos mundiais de jogadores de futebol. Rivaldo, Nedved, Ronaldinho, Ronaldo, Shevechenko, Zidane, Kaká, Robinho, Figo, Raúl, Henry. Daqui a dez anos, com excepção de Ronaldo ou Zidane, só um fanático ou familiar de algum destes jogadores poderá dizer que foi superior a Cristiano. 

Cristiano, futebolisticamente falando, é um jogador de topo mundial e a caminho de ser um dos melhores de sempre. Porém, falta-lhe uma coisa muito simples: conseguir ganhar algo com Portugal para se tornar uma lenda. A meu ver ainda não é o melhor jogador português de todos os tempos porque o Mundial de 66 e os 5-3 fazem de Eusébio algo muito grande. Mas já superou, de longe, a carreira de Figo, Rui Costa, Futre, Chalana ou Gomes.

No último Europeu, contra as minhas previsões e, quer se queira quer não, contra a sua habitual performance ao serviço de Portugal, foi Cristiano - ok, ok, e Moutinho - que levou Portugal até às meias-finais. Agora há que fazer o mesmo para comprar o bilhete para o Brasil e, aí, conseguir algo de grandioso porque, convenhamos, em 2018 dificilmente conseguirá ter este nível.

Quanto ao Real Madrid, se conquistar a Décima - porque a época tem sido ele e mais dez - torna-se uma glória eterna de um dos maiores clubes mundiais. Depois disso terá apenas que manter a sua veia profissional e competitiva, coleccionando recordes e títulos, seja onde for.

Por Pedro Fragoso

19 Abril, 2013

A arte da táctica #9: porque escasseiam os ‘10’?

Zidane

Se tivermos de ir do ponto A ao ponto B, qualquer um escolherá a auto-estrada para lá chegar o mais rapidamente possível. Qualquer um, menos Riquelme. Ele escolheria o caminho montanhoso que lhe toma 6 horas mas te regala os olhos com paisagens magníficas.  – Jorge Valdano

O mago do futebol.

Maradona, Platini, Laudrup, Zidane, Zico ou Gianni Rivera foram alguns dos melhores jogadores do mundo. Com a bola no pé e a cabeça levantada, o mundo era deles e o tempo parava, por um momento, dependente da decisão do maestro. De um momento para o outro, deixaram de ter espaço nos relvados. Não deixaram de existir (Silva, van der Vaart, Ganso, para lembrar apenas 3) mas andam frequentemente pelos bancos das suas equipas ou encontram-se afastados dos maiores palcos. É um dos maiores debates do século XXI futebolístico: o que lhes aconteceu?

 

Fim dos extremos clássicos e os box-to-box.

Outro animal raro dos relvados é, hoje por hoje, o extremo clássico, o homem que dava largura ao jogo e tinha na linha de fundo uma fita de meta prestes a ser cortada. Acredite-se, ou não, o fim dos extremos clássicos é a maior explicação para a escassez de utilização do típico 10. Com os homens de linha a procurarem cada vez mais os espaços interiores – ao ponto de ser mais comum hoje jogar-se no lado contrário ao pé preferencial – o espaço anteriormente coberto pelo 10 está hoje mais povoado que nunca. A juntar a isto, os treinadores pedem cada vez aos médios interiores que cubram o máximo de terreno possível e apareçam em zonas de finalização. É, portanto, um caso de sobrepovoação do espaço que torna inútil (nos esquemas actuais) a utilização de um distribuidor de bola para quem o espaço é imperativo.

 

Um final para os maestros?

Argumenta-se, com razão, que os distribuidores de jogo não deixaram de existir: simplesmente recuaram, correm mais, defendem melhor e agarram-se menos à bola. Deixaram de ser o 10 para ser um organizador. O futebol actual, mais exigente, resultadista e mais rápido assim o exige. Mas faz sentido? Faz sentido “sentar” no banco o próximo Zidane? Faz sentido pedir-lhe que contrarie a sua natureza, o seu “perfume”, em prol de uma concepção robótica de um desporto que se confunde não raras vezes com arte? Pessoalmente, acho que não. 1000 vezes não.

Por Pedro Barbosa (@pedromsb)

18 Abril, 2013

Amar como Jesus amou (ou como JJ é o Bielsa português)

Jorge Jesus

Brilhante?

Jorge Jesus afirmou que a época do Benfica, independentemente dos resultados, é já brilhante. Aliviar da pressão? Desculpas antecipadas? Creio que se trata, sobretudo, de amor ao futebol. Goste-se, ou não, do estilo de JJ, é inegável que 80% do seu discurso e das suas práticas deixam transparecer, acima de tudo, paixão pelo Jogo. A obsessão pela nota artística, pelo domínio do adversário e pelos golos fazem de Jesus não só o melhor treinador do futebol nacional como também uma espécie de Marcelo Bielsa português.

 

Arte

Ao ler esta entrevista de Valdano sobre a sobreposição táctica sobre a técnica e o futebol especulativo que reina nos dias de hoje, saltou-me à memória o treinador do Benfica, a propósito de uma menção que Valdano faz a Ramón Díaz. JJ é um dos poucos treinadores que se recusa a deixar de utilizar um médio distribuidor/fantasista, dois avançados-centro, laterais projectados ofensivamente e um 5 bom de bola (discutirei os aspectos puramente tácticos mais adiante, esta semana). Pessoalmente, é com muito agrado que vejo um treinador não abdicar do mais belo princípio do futebol: ganhar sim, mas não a todo o custo.

 

Crujffista convicto

JJ já o afirmou várias vezes: a sua grande referência é Crujff. No entanto, ao contrário de muitos dos seus colegas de profissão, JJ não se afirma discípulo do holandês por moda. É-o por convicção e aplica os princípios de jogo do holandês como muito poucos: trocas posicionais constantes, jogo posicional defensivo fortemente orientado para a transição, processos rápidos e grande verticalidade. Tal como Bielsa, Jesus é um acérrimo defensor de um futebol não-especulativo (conceito que não faz parte, entre outros, da ideia de jogo de Vítor Pereira). Numa época resultadista e contaminada pelo dinheiro, o futebol agradece-lhe que assim o seja.

Por Pedro Barbosa (@pedromsb)

07 Abril, 2013

Equipas míticas: Valência 1999-2001

A frase é já um chavão: as finais vencem-se e só os vencedores são imortalizados. Mas será sempre assim? Na viragem do milénio, o Valência foi sucessivamente vencido em várias competições mas a sua equipa é das que são recordadas com mais carinho pela Europa do futebol. Jogadores apaixonantes, uma abordagem ofensiva e meio mundo a torcer por eles. Foi assim o Valência de Hector Cúper, de 1999 a 2001. Ainda se lembram?

Aqui vai o desfile de nomes, alguns deles já injustamente esquecidos: Cláudio Lopez, Killy Gonzaléz, Roberto Ayala, Mendieta, Zahovic,  Albelda, Angloma, Angulo, Deschamps, Aimar e Cañizares, só para referir os que mais jogaram. É difícil recordar outra equipa que tenha tido tanto talento junto, tantas estrelas de 2ª linha ao mesmo tempo e que tenha ficado na retina dos adeptos. Claro que existiram equipas com igual quantidade de talento e qualidade, mas quantas terão tido tantos jogadores criativos, ao mesmo tempo? Mendieta, Zahovic, Aimar e Claudio Lopez são nomes de jogadores de recorte fino e capacidade de inventar jogadas onde elas não existem. Se lhe juntarem a capacidade de trabalho de Deschamps, Albelda e Baraja percebe-se facilmente porque chegaram a duas finais seguidas, na Liga dos Campões.

E como jogava este Valência? Foi, podemos afirmar, a última grande equipa a jogar num 4-4-2 em losango, a última a perceber que essa é uma abordagem ao jogo que dificulta, como nenhuma outra, as transições defensivas. Ainda assim, resultava na perfeição. Os laterais Angloma e Carboni eram experientes e bastante comedidos nas subidas, o que permitia um maior conforto para os jogadores criativos como Aimar, Claudio Lopez, Mendieta e Killy Gonzalez vaguearem no ataque livremente. Terá sido, igualmente, uma das equipas com maior progressão com bola na última década. O Valência de Cuper não era dado a tiki-takas nem a jogo directo: bola na frente, o jogador cola-a ao pé e vamos ver no que dá. Solução simples, resultados bonitos, poucos títulos. Mítico.

Por Pedro Barbosa

05 Abril, 2013

Equipas míticas: Nápoles 1985-1990

Nápoles 89

Em 1984 o Nápoles acabou a época a salvar-se da descida apenas na última jornada. Era uma equipa fraca, com adeptos enraivecidos e uma direcção desmotivada. Poucos imaginariam que estava nesse dia a nascer uma das equipas italianas mais excitantes de todos os tempos e uma das melhores equipas dos anos 80. É que foi nesse dia que a equipa do sul da Itália decidiu ir buscar Diego Maradona ao Barcelona. E tudo o argentino mudou.

Em 1986, o Nápoles tinha 2 taças de Itália no seu palmarés e nada mais! A Serie A era dominada pela Juventus de Platini/Boniek e pelo Milan de Gullit/Basten/Rijkaard. Nesse ano, as coisas mudaram e depois de Maradona conquistar quase sozinho o Mundial do México e se tornar uma lenda, achou que devia fazer o mesmo na sua equipa, que nem nas competições europeias estava inserida. 86/87 torna-se um ano mítico para o Nápoles, conquistando a sua primeira Serie A com uma equipa formada por 10 italianos + Maradona. Nos transalpinos jogavam ainda Bruno Giordano, Ciro Ferrara e Garella, o guarda-redes. A partir daí, foi sempre a subir: o clube contratou os brasileiros Alemão e Careca, viu Zola integrar a equipa principal e tornou-se uma das equipas mais fascinantes dos anos 80. Venceriam, até 1990, outra Serie A, uma Taça Uefa e duas Taças de Itália. De um clube sem palmarés até se tornar uma das equipas mais respeitadas da Europa, foi o caminho do Nápoles.

Tacticamente a equipa teve duas fases, uma com Bianchi no comando e outra com Bigon, mas a cultura napolitana não diferia muito: eram uma equipa partida, onde os defesas só defendiam e os avançados só atacavam. Depois de recuperar a bola, normalmente em zonas recuadas no terreno, os napolitanos soltavam-na para a dupla Maradona/Careca, responsável por momentos maravilhosos em frente à baliza. A História encarregou-se de acabar com o mito como o tinha começado, com um Mundial de futebol. Depois de se ter tornado uma lenda no México ‘86, Maradona foi arrasado depois do Itália ‘90 com acusações de infidelidade, abuso de drogas e uma suspensão de 15 meses. O maravilhoso Nápoles terminava aí e só 20 anos depois haveria de se reerguer.

Por Pedro Barbosa

04 Abril, 2013

Sensações de uma dupla jornada de Campeões

Liga dos Campeões

Duas noites a respirar e a viver (do) futebol, mais dois serões vividos com prazer e euforia, mas com similares doses de dúvida e angústia. Ser obrigado a desperdiçar tempo útil de um PSG – Barcelona ou de um Bayern Munique – Juventus não é algo lá muito agradável de se fazer, e não fosse a oportunidade de poder «deitar» repetidas - ainda que não inteiramente consistentes - visualizações a qualquer um dos jogos, bem me tornaria capaz de, raivosamente, arrancar uns quantos cabelos.

No entanto, e não passando grande «cavaco» ao desespero, lá foi possível «beber» um pouco mais do já típico tiki-taka catalão, das investidas atacantes vertiginosas dos parisienses de Ancelotti, assim como da intensidade e criatividade dos alemães de Munique ou da acalmia e serenidade (em excesso) da Vecchia Signora do futebol italiano.

E como valeram a pena as horas ganhas com tais espectáculos.

De Paris, por exemplo, fez-se luz sobre uma fantástica partida de futebol entre o novo-riquismo francês e a incomparável e colossal marca da Catalunha. À já conhecida aptidão para guardar a bola como ninguém por parte dos espanhóis, restaria – e de forma tão conveniente – aos franceses ripostar através de uma boa organização para, em seguida, e alicerçada na fantástica qualidade de passe de Beckham, tornar a saída para o ataque em algo tão ameaçador quanto a posse e movimentações catalãs.

Com todos estes condimentos, ganharam-se dois jogões. Não só o findo, apimentado por quatro golos e um sem número de peripécias, mas seguramente, o da segunda-mão, jogada já na próxima quarta-feira em Camp Nou, e que poderá muito bem, não contar com Messi – isto, para além da ausência confirmada de Mascherano. Do lado oposto, e como se necessária fosse a partida da última terça-feira, ficam duas certezas: a falta brutal que Matuidi fará em Barcelona, mas também a falta de andamento de David Beckham para eventos desta intensidade. Em contraponto, é fantástico ver jogar Verrati, que, ou muito me engano, poderá ser peça essencial dos franceses daqui a uma semana.

Enorme partida decorreu também na Baviera, onde reside, em meu entender, a mais excitante equipa de futebol da actualidade: o Bayern de Munique. Como é incrivelmente bom ver actuar Robben, Schweinsteiger, Lahm, Kroos ou Ribery… Tão bom que chega a ser cansativo assistir aos níveis de intensidade colocados em campo por estes e outros atletas de renome global e que luxuosamente podem, em algumas ocasiões, compor o banco de suplentes do conjunto de Heynckes.

A diferença de dois golos conseguida diante de uma letárgica e assustada Juventus (talvez assim tenha ficado perante o caudal dos de Munique) parece ser suficiente para uma gestão eficaz a estabelecer na próxima semana. As portas das meias-finais abrem-se decisivamente para os alemães, que se assumem, não só, como os mais que previsíveis campeões locais, mas igualmente, como um dos enormes favoritos à conquista final desta Liga dos Campeões.

Reconhecendo neste Bayern uma força capaz e demolidora, não posso, contudo, de juntar uma outra equipa alemã ao rol dos três mais fortes candidatos a uma vitória final: o Borussia, de Klopp. Fantástica demonstração de carácter dos bicampeões alemães em Málaga, terreno fértil em surpresas não muito agradáveis para as equipas visitantes – que o diga Vítor Pereira e o seu FC Porto. Decidi, aliás, acompanhar a par e passo as ocorrências no La Rosaleda, temendo que de Madrid não viesse grande novidade, e apesar do nulo, em nada poderei ter ficado defraudado.

Perante um Málaga pujante, pressionante, mas que foi abrindo algumas brechas entre o meio campo e a defesa, os diabos Gotze, Lewandowski e Reus foram explanando combinações e jogadas que fomentaram o pânico e que só não se traduziram em golo por obra e graça de Caballero.

Por outro lado, foi óptimo poder contemplar uma vez mais, as investidas em forma de veludo que saíam dos pés de Isco, as cavalgadas de Gamez e Joaquin pela lateral direita malaguenha, ou ainda, a incansável e utilíssima labuta do ex-leiriense (!) Iturra. A ausência deste último na partida da 2.ª mão poderá ser, alias, fundamental para as aspirações andaluzes, que não têm no seu plantel, quem tão bem faça o que faz o chileno que ainda há um ano se arrastava pelo desconhecido em Portugal. E é contando com esta ausência, com a lentidão dos defesas espanhóis, mas sobretudo com o resultado desta primeira mão, que se poderá antever um Málaga de bloco baixo em Dortmund.

Crente na rapidez e segurança dos homens da frente estará Pellegrini, um dos grandes treinadores da actualidade, mas que só muito surpreendentemente não acabará por abandonar a prova já na próxima semana. Do outro lado estarão Jurgen Klopp e uma equipa de posse, coesa mas igualmente mortífera no ataque. Com Gundogan a municiar os sprinters mais avançados, poucas serão as hipóteses castelhanas para seguir em frente, mas veremos, pois em surpresas foi pródiga a edição anterior da prova.

Abordando acontecimentos inesperados, é impossível passar em claro o trio de golos com que o Real Madrid simplesmente despachou o Galatasaray, da «raposa» Terim. Ironicamente, claro, pareceu demasiado óbvia a assumpção de poder e capacidade de Ronaldo, Ozil e companhia, perante Drogba, Snjeider e Yilmaz, nitidamente a mais numa equipa que tanto porfiou mas que pouco ou nada alcançou.

Com o concludente resultado de ontem, parece (quase) encaixada a qualificação dos merengues de Mourinho, assim como a revelação daquele que será, quiçá, o mais poderoso dos pretendentes a um triunfo final.

Por Francisco Esteves

02 Abril, 2013

Equipas míticas: Bayern 1973-76

Bayern 1975

O Bayern Munique é hoje um gigante mundial nem sempre bem compreendido. Com “apenas” uma vitória e um segundo lugar desde 2000, os mais novos poderão achar incompreensível que este seja um dos maiores clubes do mundo. Se o é, muito se deve a Udo Lattek e Dettmar Cramer, dois treinadores sensacionais que guiaram a equipa à vitória em 3 Ligas dos Campeões consecutivas. De 1973 até 1976 a Europa do futebol não conheceu outro clube vencedor que não fosse o Bayern de Munique.

Até 1969, a Bundesliga era completamente dominada pelo Borussia Moenchglabach e o Bayern era uma equipa média, sem grandes ambições. Tudo mudou com a chegada de Udo Lattek e o nascimento de figuras históricas na academia de Munique, devidamente aproveitadas pelo timoneiro alemão. Quando partiu para a Liga dos Campeões de 1973/74, o já campeão alemão contava com figuras como Beckenbauer, Sepp Maier, Hoeness, Gerd Mueller e Rummenigge, o quinteto magnífico que seria responsável pelo Mundial que a Alemanha venceria em casa, nesse mesmo ano. Era uma equipa a todos os títulos extraordinária e tinha como missão travar a hegemonia do Ajax (que trazia 3 Champions seguidas) de Cruyff, Neskeens e Michels. E só eles o poderiam ter feito, na época.

Em 1974 o Bayern bateu o Atlético de Madrid por 4-0, em 1975 foi o Leeds United por 2-0 e 1976 o Saint-Étienne por 1-0. Sempre contra equipas de diferentes culturas futebolísticas e um denominador comum: nunca sofreram golos numa final. Curiosamente, se retirarmos Beckenbauer da equação, este Bayern comportava-se em tudo de forma diferente do futebol da época: não actuava como um bloco, a linha defensiva era baixa e não recorria muito às faixas do campo, provavelmente porque a sua referência de ataque era Mueller, o pequeno bombardeiro alemão, mais conhecido pela velocidade e instinto apuradíssimo. Foi assim que o Bayern conquistou 3 Ligas dos Campeões seguidas e que criou o mito alemão da raça e cinismo, opondo-se à magia e liberdade holandesas.

Por Pedro Barbosa (@pedromsb)

29 Março, 2013

F.C.Porto - a quebra do campeão



Quem viu a primeira metade do campeonato do F.C.Porto deparou-se com o melhor F.C.Porto desde Villas-Boas. Mesmo os mais cépticos já começavam a dar o braço a torcer a Vítor Pereira. Mais do que ganhar, a equipa começava a fazer outra coisa fundamental a qualquer treinador que pretenda ter sucesso no Dragão: jogar bem, convencer dentro de campo (na minha óptica, parte das razões que levaram à saída de Jesualdo, por exemplo). No final do ano passado disse aqui que a minha opinião era que apesar de o F.C.Porto ter sido campeão, o S.L.Benfica era a que equipa que praticava o futebol mais atractivo. Na primeira metade desta época, o F.C.Porto conseguiu melhor imenso nesse aspecto.

O momento da quebra

Identifico como momento da quebra o empate 1-1 com a Olhanense no Estádio do Dragão à 18ª jornada (10 de Fevereiro). Apesar de ter vencido o Beira-Mar por 0-2 no jogo seguinte, o empate com a Olhanense marcaria uma viragem no momento de forma do F.C.Porto. Depois do Beira-Mar, uma vitória arrancada a ferros ao Rio Ave no Dragão já transparecia fragilidades na equipa. Lembro-me de estar a contar com um deslize em Alvalade, que aconteceu e marcou o momento em que o S.L.Benfica se isolou no comando do campeonato. Este jogo foi paradigmático daqueles que são, na minha opinião, os dois pontos mais fracos no jogo do F.C.Porto: a mentalidade e a capacidade de definição de jogadas no último terço. Depois de Alvalade foi o que sabemos: uma vitória, derrota incrível em Málaga e previsível empate na Madeira com os problemas de sempre.

O aspecto psicológico

Insegurança, nervosismo, precipitação. Uma grande equipa define-se não só pelo que consegue fazer quando está no seu melhor mas especialmente pelo que é quando as coisas não saem conforme o esperado. Existem dias maus no futebol para qualquer equipa mas a forma como reagem mentalmente às adversidades define grande parte das suas possibilidades de as superarem. Quando a bola não entra, quando o árbitro não ajuda, quando um elemento comete um erro crasso, há que ter a capacidade de manter a frieza e não se deixar abater. Isso foi algo que o F.C.Porto não conseguiu fazer.
Alvalade foi o exemplo paradigmático disso mesmo. A equipa entrou nervosíssima em campo e o que se passou em campo só contribuiu para agravar esse aspecto. Muita posse mas muito poucas oportunidades. O tempo passava e a bola teimava em não entrar. Por outro lado, o Sporting C.P. criava poucas mas perigosas oportunidades que só agravavam o problema. A qualidade do jogo do F.C.Porto sofreu imenso com os jogadores a tentar concluir jogadas com a maior das pressas - imensos passes falhados, jogadas sem fio condutor e pouca coesão da equipa foram o resultado.
Málaga foi outro exemplo de uma equipa com a cabeça em água (o que é aquela expulsão do Defour?).

O último terço

Apesar da imensa posse de bola que sempre tem, ao contrário do Barcelona que Vítor Pereira tenta de forma quase disparatada imitar, o F.C.Porto é incapaz de transformar essa posse em oportunidades. É uma equipa demasiado inconsequente no último terço. Neste aspecto é o exacto oposto do seu rival, o S.L.Benfica. Em Málaga não conseguiu criar oportunidade, lembro-me de um remate à baliza do James no fim e nenhum com perigo. Isso torna-se mais evidente ainda sempre que Jackson não consegue resolver, o que põe a descoberto outro problema fundamental: a falta de alternativas no banco.

O banco

Um plantel curto fica muito bonito na folha de salários. Dispensar jogadores a torto e a direito e sem qualquer tipo de explicações para os sócios até pode funcionar numa equipa que ganha, mas quando as coisas começam a correr mal vão começar a ser pedidas explicações. Danilo, um dos piores jogadores da equipa (nem direi uma palavra sobre quanto custou) não tem concorrência no plantel. É preocupante que um jogador que joga mal constantemente não possa ter um substituto. O meio campo está constantemente sem soluções, mais ainda quando alguém se lesiona. Lucho é uma substituição obrigatória todos os jogos e se alguém falha no meio campo por algum motivo há sempre problemas. Isto acontecerá ainda mais tanto quanto V.Pereira tiver medo de apostar em jovens da formação.
O problema de Danilo estende-se a outros sectores, apenas não é tão evidente porque os jogadores não jogam tão mal. Qual é a concorrência de Alex Sandro, por exemplo?

As melhorias observadas na primeira metade do campeonato caíram agora todas por terra. Estou à vontade para falar porque Vítor Pereira nunca me convenceu como treinador do F.C.Porto. Mas o que pesará mais na avaliação dos adeptos: o campeonato do ano passado e a primeira metade desta época ou as desilusões na Champions em ambos os anos, a eliminação na Taça, os sucessivos erros de gestão do plantel e a mais que provável derrota no campeonato este ano?

Fred
 

28 Março, 2013

Francesco Totti - 20 anos



Por Pedro Fragoso

Cumpre-se o hoje o vigésimo aniversário da estreia de Francesco Totti em jogos oficiais pela AS Roma. Vamos directos ao assunto: um jogador com uma qualidade técnica assombrosa, uma grande paixão pelo futebol, um homem carismático, símbolo romano giallorosso, o eterno capitão, o ídolo dos seus tiffosi e um caso raro no mundo contemporâneo de amor ao clube. Só por isto Totti terá lugar garantido nos melhores almanaques de futebol que se escreverão sobre os tempos que vivemos.

Aos 36 anos pode-se dizer que lhe falta um título europeu de clubes, mais campeonatos, mais troféus, podemos mesmo dizer. Mas aquele título de 2000/2001, o Mundial de 2006 e todo o simbolismo em torno dele na cidade eterna valem mais do que muitos títulos, arrisco eu.

Apesar de se ter estreado há tanto tempo, Totti só chega a uma grande competição com a squadra azzurra em 2000, no europeu da Bélgica e da Holanda. Antes, tinha sido campeão europeu de sub21 em 1996. É fácil perceber por que é que Totti chega tão tarde à equipa nacional:, já que os avançados italianos da década de 90 eram muito bons. Para um miúdo como eu com 11 anos, foi apenas em 2000 que ouvi falar de Francesco Totti. Romano, diziam. Se não era da Lázio - fascistas, ouvia eu lá em casa - eu podia gostar dele. Um golo à Bélgica, na fase de grupos, e outro à Roménia, nos quartos, chegou para eu decorar aquele nome. Mas o melhor estava para vir.

Jogava-se a meia-final do Euro 2000 em Amesterdão. A anfitriã Holanda recebia a Itália e queria chegar novamente a uma final de uma grande competição. Jogaram-se 120 minutos e não houve golos, culpa de um grandioso Francesco Toldo. Não deve haver um holandês que não saiba quem é Francesco Toldo (e, também, Taffarel), o gigante guardião que teve a sua noite de glória internacional ao defender três grandes penalidades nesse jogo: uma no tempo regulamentar e duas na lotaria dos penaltis. Vamos já directos para essa fase.

A Itália marca as duas primeiras e a Holanda não acerta nenhuma delas, Frank de Boer chuta sem convicção e a bola de Jaap Stam ainda não deve ter aterrado na Terra. Chega a vez de Francesco Totti, suplente utilizado - entrou aos 83 para o lugar de outro grande protagonista italiano desse europeu, Stefano Fiore. E é aqui que se faz magia: pela primeira vez na vida via um penalti à Panenka. Numa meia-final de um Europeu. Com toda a classe possível. Com Van der Sar completamente batido. Num estádio pintado de laranja. Que grande momento. Foi o melhor que me podia acontecer naquela tarde, ainda na ressaca do jogo da noite anterior, quando Abel Xavier meteu a mão na bola.

Se já havia poucas razões para torcer pelos franceses na final, Totti mostrou-nos o caminho. E na final de Roterdão, onde Itália e França trocaram de papéis - a primeira ao ataque, a segunda, cínica e à defesa - Totti abriu caminho para a glória, com um toque de calcanhar para Pessotto que centrou lindamente para Delvecchio. 1-0, domínio total italiano até que Wiltord e Trezeguet estragaram a festa italiano. Aquele teria que ser o campeonato de Totti, de Toldo, de Fiore, de Zoff, de Del Piero. Seis anos depois, em Berlim, houve vingança...Grossa(o).

Foi há vinte anos que Totti se estreou na Serie A. Mas, para mim, Totti existe desde aquele belo penalti. É certo que nos último tempos, muitos têm arriscado a fazer o mesmo, e com sucesso, em jogos decisivos - Pirlo, Postiga, Sérgio Ramos - e vai-se sempre buscar Panenka para ilustrar verbalmente o golo. O que é justíssimo. Só que na minha cabeça revejo sempre o penalti de Totti. 




26 Março, 2013

Equipas míticas: Milan 1994

Milan 1994

     Por Pedro Barbosa @pedromsb)

Atenas, 18 de Maio de 1994. O Mundial dos Estados Unidos estava a chegar e na Europa só faltava disputar mais um jogo, o da final da Liga dos Campeões entre Milan e Barcelona. Apesar do encontro ser entre duas equipas históricas no panorama mundial, poucos achavam que o Milan teria a mais pequena hipótese contra um Barcelona todo-o-poderoso (à imagem do de hoje), treinador por Crujff e com jogadores como Romário, Guardiola, Laudrup, Stoichkov e Koeman. O mundo do futebol aprendeu, no entanto, uma lição que poucos esqueceram.

No ano anterior o Milan tinha perdido com o Marselha e Fabio Cappelo, o treinador, tinha perdido o tridente holandês que havia dominado o futebol (Rijkaard, Gullit e van Basten). Chegar à final, nestas condições, era já um prémio, especialmente quando pela frente estava o dream team catalão. Só que o futebol tem os seus encantos e as lendas nascem nos momentos mais imprevisíveis, como aquela quente noite de Maio. Com uma equipa recheada de jovens jogadores, o Milan deu um festival de futebol e Capello um enorme banho táctico a Crujff, que de tão confiante que estava decidiu usar Begiristain em vez de Laudrup. Depois de uma primeira parte equilibrada, o Milan voltou para a segunda parte decidido a fazer história. E fê-la: 4-0 foi o resultado final que deixou o mundo boquiaberto e fez nascer algumas lendas que ainda hoje são recordadas com carinho, como Maldini, Desailly, Boban, Savicevic e Albertini. No ano seguinte o Milan voltaria à final mas provou do seu próprio veneno e perdeu para um jovem treinador apostado em devolver a glória ao Ajax.

Como se comportava tacticamente este Milan: no ataque era uma equipa extraordinária, com Massaro fixo na frente (fez 2 golos, depois de roubar o lugar a Papin e Lentini) e o duo Boban/Savicevic que, embora não fossem extremos, alargavam bastante o jogo, numa movimentação rara na época para dois médios ofensivos. Quando em posse de bola, o Milan era ultra-rápido a chegar à baliza adversária e fazia-o com tensão, variando a distribuição de jogo e os meios de ataque entre cruzamentos, passes nas costas e remates frontais. Quando não tinha posse de bola, Desailly, Albertini e Donadoni faziam de tudo para anular o meio-campo catalão, em especial o francês, que fez naquela noite o jogo da sua vida, coroado com um golo.  A defesa era seguríssima, pouco dada a riscos desnecessários e foi a mesma da selecção italiana no Mundial que se seguiria: Baresi (que falhou a final, jogando Galli), Tassotti, Pannuci e Maldini, com o mítico Sebastiano Rossi na baliza. 

25 Março, 2013

André Leão

André Leão

André Leão é um médio extraordinário a quem começa a ser reconhecida, finalmente, a enorme qualidade que apresenta. Aos 27 anos está no pico da sua carreira e é uma das principais razões para a extraordinária candidatura do Paços de Ferreira à Liga dos Campeões. Se este ano, por si só, justifica uma menção (mais do que) honrosa para o médio dos castores, o que dizer depois da última actuação de Portugal em Israel? É este o meu argumento: Leão é, hoje por hoje, um exemplo perfeito da distância entre o futebol português e, por exemplo, o espanhol.

Confesso que me causa uma grande estranheza a ausência de Leão nos (pré-)convocados para a equipa das quinas. Para além da enorme valia e da grande época, há a considerar a insuficiência física de Moutinho, a falta de rodagem de Carlos Martins e as péssimas exibições de Veloso. No meio de tudo isto, não há espaço para o André? Em Espanha, o jogador da moda (num meio-campo com Xavi, Xabi, Iniesta, Cesc…) é Beñat, do modesto Bétis. Lallana foi convocado para a selecção inglesa face ao mau momento de Carrick e Parker. Em Portugal continuamos a preterir jogadores em função dos clubes onde actuam, independentemente da maior crise de lesões ou inspiração que possa existir.

A mentalidade futebolística nacional continua a preferir recorrer a um jogador acomodado de um clube grande do que a outro, trabalhador incansável e ambicioso, de um clube de menor dimensão. Mesmo quando o clube em causa ameaça uma presença na competição mais importante do mundo de clubes e está a 15 pontos de diferença de um dos grandes. E apesar deste ser um texto sobre o André, ele é sobretudo sobre uma das razões para o estado caótico constante em que nos encontramos sempre que está em causa um apuramento.

Por Pedro Barbosa

18 Fevereiro, 2013

Sobre o anti-jogo




Por Pedro Fragoso

Ontem, após 90 minutos muito complicados, o Benfica conseguiu nos descontos uma vitória importante sobre a Académica por 1-0. Foi um alívio para os encarnados que, procurando explicações para um desempenho abaixo do nível já demonstrado esta época, resolveram massacrar o adversário acusando-o do anti-jogo constante, de não quererem atacar, em suma, de colocarem o autocarro à porta da baliza.

Confesso que me irrito quando vou ao estádio e a minha equipa passa o tempo todo a atacar, a outra a defender e o resultado é ou escasso ou insuficiente. Mas com o passar dos anos fui aprendendo que a culpa não é do adversário que passa o tempo todo a defender. A culpa é de quem ataca, simplesmente isso.

95% dos jogos em casa do Benfica e do Porto esta época tiveram apenas um sentido: a baliza do adversário das duas melhores equipas nacionais. Raramente se viu um jogo equilibrado, com oportunidades para os dois lados. O que difere é a percentagem de tempo em que o adversário apenas se preocupa em defender. Se o Benfica ou o Porto marcam cedo - até aos 20 minutos, por exemplo - a probabilidade do resultado ser dilatado é grande: aumentam os níveis de confiança, baixa a ansiedade e, sobretudo, o adversário é obrigado a arriscar mais, o que não quer dizer que consiga chegar à baliza porque estas duas equipas são muito fortes defensivamente. Caso não marquem cedo - ou até sofram golos nos instantes iniciais da partida - é muito provável que ao adversário se remeta à sua área: porque é mais fraco, porque quer pontos, porque não quer ser cilindrado.

Se Benfica e Porto entrassem em todos os jogos com determinação e vontade de resolver o jogo cedo, a probabilidade de não vermos autocarros junto à área é muito maior. Por vezes as equipas entram mais ansiosas ou mais cansadas e demoram a entrar na partida. Isto é, igualmente, algo natural numa equipa de alta competição. Daí a importância da gestão do plantel, da inclusão de elementos novos não se restrinja apenas a jogos da taça da liga de portugal, etc.

Eu sei que é fácil criticar a Académica (e outras equipas) mas a verdade é que são armas que têm e são mais do que legítimas. Mal vai uma equipa como o Porto ou o Benfica que não conseguem ultrapassar adversários de nível muito inferior apenas porque se remetem todos à defesa. Isto também se treina.


06 Fevereiro, 2013

Lima - o indispensável


Por Pedro Fragoso

É verdade que Matic tem supreendido e feito grandes jogos. É igualmente verdadeiro que Melgarejo não tem comprometido a defesa do Benfica como muitos previam. E Ola John apareceu tarde mas cheio de força e talento. Já para não falar de Enzo Pérez que também se vai habituando muito bem aos terrenos intermédios. Mas deixemo-nos de rodriguinhos: Lima é a estrela do actual Benfica.

Depois de duas épocas de grande nível no Braga, chegou a um grande e encaixou como uma luva. Não querendo fazer exercícios de adivinhação sobre um possível impacto de Lima ou no Sporting ou no Porto - que podiam e deviam ter contratado o avançado. Falemos do papel do brasileiro no esquema de Jesus.

O treinador do Benfica gosta de jogar com dois avançados mas parte do insucesso das últimas épocas prendeu-se com a inexistência de jogadores complementares na frente de ataque. Se Cardozo é indiscutível, o seu parceiro não pode ser qualquer um - sim, estou a pensar em Rodrigo. Em 2009/2010, ano em que o Benfica foi campeão, Jesus teve Saviola em grande forma, revelando-se o parceiro ideal para o goleador paraguaio. Muito inteligente nas movimentações e cheio de qualidade técnica, esta dupla destruiu - é o termo - quase todas as defesas adversárias. Não deixa de ser curioso que na eliminatória com o Liverpool para a Liga Europa, contra quem o Benfica hipotecou as (legítimas) esperanças de ganhar a competição, Saviola não tenha jogado por lesão. É certo que houve a adaptação de David Luiz à esquerda mas deixar Cardozo sozinho nestes jogos nunca foi a melhor estratégia.

No ano seguinte, Saviola esteve muito longe do seu melhor e Jara nunca foi alternativa credível. O ano passado, a dupla Rodrigo-Cardozo chegou a prometer mas, em parte devido a uma lesão do espanhol, nunca funcionou em pleno e Nélson Oliveira nunca foi aposta concreta de Jesus. Este ano, e já com Saviola descartado, Jesus precisava de um parceiro para Cardozo. Mas, devido às saídas de Witsel e ausência permanente de Aimar, não podia ser qualquer um. Lima, para além de ser um excelente finalizador, é um jogador que sabe pensar o jogo com a bola nos pés, tem uma capacidade física notável e pisa todo o último terço do terreno deixando sempre em perigo as defesas contrárias.

Assim, Lima permite que Cardozo não se preocupe tanto no jogo com bola, consegue fazer bem a ligação entre o meio-campo e o ataque encarnado e, mais importante, dá uma dimensão diferente em determinados jogos. Pensemos em Saviola, Jara, Kardec, Cardozo, Nuno Gomes, Weldon, Nélson Oliveira e Lima. Qual destes jogadores seria o indicado para jogar sozinho na frente de ataque num qualquer jogo de alta dificuldade, partindo do princípio que Jesus tenderá a optar por esta solução como fez em Braga (e deveria ter feito contra o Porto), colocando dois alas rápidos (Salvio e John) e Gaitan solto no meio atrás do avançado. Penso que a resposta mais óbvia é Lima, sendo aquele que dá mais garantias, quer na construção do ataque, quer na finalização. 

Para o que resta da época, Lima é o jogador mais fundamental do plantel com o Benfica. Apenas Artur e Garay - e Maxi, mas este devido a falta de soluções -  conseguem rivalizar com o avançado por aquele estatuto. Jardel já mostrou que pode ser um bom substituto de Luisão; Luisinho faz tão bem ou melhor que Melgarejo; André Gomes pode muito bem substituir Matic ou André Gomes e não se nota a diferença; Urreta, Salvio, Gaitan e Ola John são soluções suficientes para as alas; se não houver Cardozo, joga Rodrigo ou Kardec e há sempre golos. Mas se falha Lima...

ps: e naturalizá-lo?

12 Janeiro, 2013

Que Porto teremos amanhã no Clássico?


Por Pedro Fragoso


Amanhã joga-se o Benfica-Porto, o grande duelo do futebol português dos últimos anos. Frente a frente estarão as melhores equipas portuguesas, os melhores jogadores a actuar no nosso país e será decisivo para a decisão do campeão nacional desta época. Quer por motivos psicológicos mas também porque estas duas equipas, jogando mal ou bem, têm ultrapassado os restantes adversários com relativa facilidade. O Benfica chega indiscutivelmente melhor a este jogo, com quase todos os jogadores à disposição e em boa forma. Já o Porto atravessa uma fase intermitente. E é sobre isso que escrevo.

Por muito que Vítor Pereira insista em contrariar a ideia de que a qualidade de jogo da sua equipa é intermitente - e já é uma conversa repetida do ano passado - basta ter prestado atenção aos jogos para dizer que o Porto não faz uma boa exibição desde Outubro, apesar da quase totalidade de vitórias nos jogos que realizou. A qualidade dos jogadores tem vindo ao de cima em muitos casos para salvar jogos aborrecidos. James, Moutinho, Jackson ou Lucho são estrelas maiores do futebol europeu e isso é suficiente para contrariar as (poucas) dificuldades que a Liga Portuguesa coloca. 

E contra o Benfica, no teste mais difícil da época, será este Porto capaz de mostrar a sua melhor versão? É possível, principalmente devido ao talento e vasta experiência dos jogadores nestes jogos. O ambiente da Luz é intimidador mas a maioria dos jogadores deste plantel já lá ganhou jogos, passagens a finais e títulos. O que pode dificultar as contas do Porto no jogo de amanhã é a falta de James, as fragilidades defensivas nas laterais, a ausência de alternativas ofensivas e a completa previsibilidade do seu jogo. Isto sem contar com o adversário, muito forte, com óptimos jogadores e em melhor forma.

Vítor Pereira, na minha opinião, caiu de pára-quedas no Dragão, herdou uma equipa montada, quase a destruiu, foi salvo por Lucho e pela famosa "estrutura" e continua sem mostrar grande coisa na sua passagem pelo Porto. E aqui entramos na sua gestão do plantel - e isto partindo do princípio, para mim não muito claro, que ele tem completa responsabilidade nas saídas e entradas do plantel. Como é possível uma equipa que joga em 4-3-3 prescindir de Djalma quando tem poucas alternativas claras para a posição de extremo? Como é possível prescindir de Miguel Lopes, jogador que faz os dois corredores na defesa, para ficar com apenas um jogador para cada lateral? Bem sei que o mercado não encerrou mas, ou Danilo mete água de forma clamorosa, ou então fica com os dois laterais de luxo e, como alternativa, Mangala para a esquerda e Maicon para a direita. 

Danilo tem mostrado muitas fragilidades defensivas e tem sido posto pouco à prova. Amanhã, para mim, vai ser o jogador em destaque: terá na Luz que calar os seus críticos - eu não sou um deles - e justificar o enorme investimento feito pelo clube. Na defesa, tudo aponta para a titularidade de Mangala. O jovem francês já tem demonstrado valor mas é preciso não esquecer que o ano passado, no jogo da Taça da Liga em que marcou o golo, ficou ligado de forma clamorosa a dois golos do Benfica. A equipa da casa, com grande pendor ofensivo e cheio de jogadores letais no último terço do terreno, terá que aproveitar bem estas fragilidades do Porto. 

Bem sei que o Benfica tem deficiências. Matic ainda tem que demonstrar em jogos desta natureza que possui a qualidade que vai evidenciando em jogos de menor dimensão. As laterais defensivas de Jorge Jesus também não estão em grande forma mas do outro lado não há James...nem Hulk. É o primeiro duelo em muitos anos sem o brasileiro que decidiu directa ou indirectamente muitos clássicos. Será Izmaylov o joker de amanhã?

Por fim, e voltando ao Porto, perante o plantel que Vítor Pereira tem em mãos, deixo uma ideia. O meu onze, amanhã, seria qualquer coisa assim: Hélton, Abdoulaye, Otamendi, Mangala, Danilo, Alex Sandro, Fernando, Lucho, Moutinho, Varela e Jackson. Sim, 3 centrais - todos com características ideais para jogarem sozinhos atrás. Alex Sandro e Danilo a fazerem o corredor, algo que não é nem estranho para os jogadores nem descabido pois noutros tempos já desempenharam essas funções. E quando James estivesse pronto, sairia Varela. Seria arriscado entrar com uma nova disposição táctica neste jogo mas é algo que se poderá considerar para o futuro próximo deste plantel. E lembro que na época passada, apesar de jogar com mais um, Vítor Pereira resolveu jogar com três defesas e arriscar. Conseguiu a vitória e fez-se treinador. Amanhã tem novamente um teste decisivo e ficaremos a saber que Porto teremos para a segunda parte desta época.

12 Dezembro, 2012

Doze


Por Pedro Fragoso

Hoje toda a gente fala do 12.12.12., o ano passado foi o 11.11.11, há dois anos o 10.10.10, e por aí fora. Pois no futebol o número doze é geralmente associado ao 12º jogador - um "substantivo colectivo" já que se refere ao conjunto de pessoas que, no estádio, apoiam a sua equipa. Mas o 12 no futebol já significou outra coisa: o guarda-redes suplente.

Até há uns anos atrás não havia a numeração fixa para toda uma época desportiva. Para cada jogo perfilavam-se onze jogadores que envergavam nas costas das camisolas os números 1,2,3,4,5,6,7,8,9,10 e 11. O doze era, então, para o guarda-redes suplente. Há vários bons guarda-redes que ficaram eternamente ligados ao número doze, suplentes do inquestionável número um. Agora perdeu-se a mística do doze, havendo até guarda-redes que dispensam o uso do número um nas costas mesmo quando são titulares indiscutíveis - por exemplo Vítor Baía, no seu regresso ao FCPorto, escolheu o 99, ano do penta, para o nunca mais largar, mesmo após o final da carreira. 

Os números doze, apesar de estarem a maior parte do tempo na sombra, são fundamentais para que os números um sejam indiscutíveis. Os treinos de guarda-redes, muito individualizados, permitem que os habituais suplentes mostrem o seu valor (técnico, táctico e psicológico), não só ao técnico mas, principalmente, ao colega de baliza. É por isso que a coluna Guarda-redes de Culto não é constituída de guarda-redes que envergaram eternamente o doze nas costas. Mas já reconhecemos o seu valor por uma vez, quando dedicámos um texto a Marcelo Boeck, o melhor 12 do futebol português da actualidade desde a saída de...Hulk.