Acerca do FootyElegance
O FootyElegance é uma página mantida por 4 amigos apaixonados por bom futebol e ainda mais por uma bela discussão.
De cada vez que vejo Vítor Pereira actuar em plena sala de imprensa, não consigo evitar deixar escapar uma ou outra lembrança associada a José Mourinho, o homem que um dia disse começar a ganhar os jogos a disputar, ainda no briefing de imprensa. Ora, assim sendo, não posso deixar de prestar uma espécie de vénia a todo e qualquer jogador que veste de azul e branco, nomeadamente, pelas contínuas recuperações anímicas e no próprio marcador, que praticamente a cada jogo, ousam encetar, ainda e apesar dos «tiros» na própria «navegação» dados, a cada passo, pelo homem que os comanda, bem antes de as partidas sequer terem inicio.
A forma como o técnico portista procurou compor um aviso à navegação durante a conferência de imprensa de lançamento de hostilidades diante do Vitória de Setúbal, apelando à força das gentes do Norte, trouxe-me ainda mais certezas relativamente ao presente estado do espinhense: Vítor é, neste momento, um homem solitário. Não o será, obviamente, em termos de origens, já que no plantel às suas ordens, é o gondomarense Castro, e ninguém mais, quem acompanha o timoneiro, em todo o fervor devotado à lógica regionalista.
É, contudo, na forma quase pateta como procura juntar as tropas, resgatando uma aparentemente adormecida comunhão entre si e/ou os jogadores e os mais devotos defensores da «causa azul» - os adeptos -, na maneira como vibra e vive cada incidência de jogo ou ainda, e mais estruturalmente, na forma como parece (não) ter-se ingerido na lógica de contratações recentes, que Vítor parece insistir em percorrer as suas últimas pisadas enquanto treinador do F.C. Porto, da forma mais tristonha e solitária.
Com o derradeiro título possível ainda perfeitamente ao alcance, mas, invariavelmente, de malas feitas, talvez se possa aconselhar o antigo adjunto de Villas-Boas a iniciar uma bela duma reabilitação competitiva, quem sabe, ao serviço de um clube de dimensões mais modestas que o actual campeão nacional. Talvez desta forma, de alma e motivações recauchutadas se possa reconhecer o (re) aparecimento do verdadeiro Vítor Pereira.
Por Francisco Esteves
Se tivermos de ir do ponto A ao ponto B, qualquer um escolherá a auto-estrada para lá chegar o mais rapidamente possível. Qualquer um, menos Riquelme. Ele escolheria o caminho montanhoso que lhe toma 6 horas mas te regala os olhos com paisagens magníficas. – Jorge Valdano
O mago do futebol.
Maradona, Platini, Laudrup, Zidane, Zico ou Gianni Rivera foram alguns dos melhores jogadores do mundo. Com a bola no pé e a cabeça levantada, o mundo era deles e o tempo parava, por um momento, dependente da decisão do maestro. De um momento para o outro, deixaram de ter espaço nos relvados. Não deixaram de existir (Silva, van der Vaart, Ganso, para lembrar apenas 3) mas andam frequentemente pelos bancos das suas equipas ou encontram-se afastados dos maiores palcos. É um dos maiores debates do século XXI futebolístico: o que lhes aconteceu?
Fim dos extremos clássicos e os box-to-box.
Outro animal raro dos relvados é, hoje por hoje, o extremo clássico, o homem que dava largura ao jogo e tinha na linha de fundo uma fita de meta prestes a ser cortada. Acredite-se, ou não, o fim dos extremos clássicos é a maior explicação para a escassez de utilização do típico 10. Com os homens de linha a procurarem cada vez mais os espaços interiores – ao ponto de ser mais comum hoje jogar-se no lado contrário ao pé preferencial – o espaço anteriormente coberto pelo 10 está hoje mais povoado que nunca. A juntar a isto, os treinadores pedem cada vez aos médios interiores que cubram o máximo de terreno possível e apareçam em zonas de finalização. É, portanto, um caso de sobrepovoação do espaço que torna inútil (nos esquemas actuais) a utilização de um distribuidor de bola para quem o espaço é imperativo.
Um final para os maestros?
Argumenta-se, com razão, que os distribuidores de jogo não deixaram de existir: simplesmente recuaram, correm mais, defendem melhor e agarram-se menos à bola. Deixaram de ser o 10 para ser um organizador. O futebol actual, mais exigente, resultadista e mais rápido assim o exige. Mas faz sentido? Faz sentido “sentar” no banco o próximo Zidane? Faz sentido pedir-lhe que contrarie a sua natureza, o seu “perfume”, em prol de uma concepção robótica de um desporto que se confunde não raras vezes com arte? Pessoalmente, acho que não. 1000 vezes não.
Por Pedro Barbosa (@pedromsb)
Brilhante?
Jorge Jesus afirmou que a época do Benfica, independentemente dos resultados, é já brilhante. Aliviar da pressão? Desculpas antecipadas? Creio que se trata, sobretudo, de amor ao futebol. Goste-se, ou não, do estilo de JJ, é inegável que 80% do seu discurso e das suas práticas deixam transparecer, acima de tudo, paixão pelo Jogo. A obsessão pela nota artística, pelo domínio do adversário e pelos golos fazem de Jesus não só o melhor treinador do futebol nacional como também uma espécie de Marcelo Bielsa português.
Arte
Ao ler esta entrevista de Valdano sobre a sobreposição táctica sobre a técnica e o futebol especulativo que reina nos dias de hoje, saltou-me à memória o treinador do Benfica, a propósito de uma menção que Valdano faz a Ramón Díaz. JJ é um dos poucos treinadores que se recusa a deixar de utilizar um médio distribuidor/fantasista, dois avançados-centro, laterais projectados ofensivamente e um 5 bom de bola (discutirei os aspectos puramente tácticos mais adiante, esta semana). Pessoalmente, é com muito agrado que vejo um treinador não abdicar do mais belo princípio do futebol: ganhar sim, mas não a todo o custo.
Crujffista convicto
JJ já o afirmou várias vezes: a sua grande referência é Crujff. No entanto, ao contrário de muitos dos seus colegas de profissão, JJ não se afirma discípulo do holandês por moda. É-o por convicção e aplica os princípios de jogo do holandês como muito poucos: trocas posicionais constantes, jogo posicional defensivo fortemente orientado para a transição, processos rápidos e grande verticalidade. Tal como Bielsa, Jesus é um acérrimo defensor de um futebol não-especulativo (conceito que não faz parte, entre outros, da ideia de jogo de Vítor Pereira). Numa época resultadista e contaminada pelo dinheiro, o futebol agradece-lhe que assim o seja.
Por Pedro Barbosa (@pedromsb)

A frase é já um chavão: as finais vencem-se e só os vencedores são imortalizados. Mas será sempre assim? Na viragem do milénio, o Valência foi sucessivamente vencido em várias competições mas a sua equipa é das que são recordadas com mais carinho pela Europa do futebol. Jogadores apaixonantes, uma abordagem ofensiva e meio mundo a torcer por eles. Foi assim o Valência de Hector Cúper, de 1999 a 2001. Ainda se lembram?
Aqui vai o desfile de nomes, alguns deles já injustamente esquecidos: Cláudio Lopez, Killy Gonzaléz, Roberto Ayala, Mendieta, Zahovic, Albelda, Angloma, Angulo, Deschamps, Aimar e Cañizares, só para referir os que mais jogaram. É difícil recordar outra equipa que tenha tido tanto talento junto, tantas estrelas de 2ª linha ao mesmo tempo e que tenha ficado na retina dos adeptos. Claro que existiram equipas com igual quantidade de talento e qualidade, mas quantas terão tido tantos jogadores criativos, ao mesmo tempo? Mendieta, Zahovic, Aimar e Claudio Lopez são nomes de jogadores de recorte fino e capacidade de inventar jogadas onde elas não existem. Se lhe juntarem a capacidade de trabalho de Deschamps, Albelda e Baraja percebe-se facilmente porque chegaram a duas finais seguidas, na Liga dos Campões.
E como jogava este Valência? Foi, podemos afirmar, a última grande equipa a jogar num 4-4-2 em losango, a última a perceber que essa é uma abordagem ao jogo que dificulta, como nenhuma outra, as transições defensivas. Ainda assim, resultava na perfeição. Os laterais Angloma e Carboni eram experientes e bastante comedidos nas subidas, o que permitia um maior conforto para os jogadores criativos como Aimar, Claudio Lopez, Mendieta e Killy Gonzalez vaguearem no ataque livremente. Terá sido, igualmente, uma das equipas com maior progressão com bola na última década. O Valência de Cuper não era dado a tiki-takas nem a jogo directo: bola na frente, o jogador cola-a ao pé e vamos ver no que dá. Solução simples, resultados bonitos, poucos títulos. Mítico.
Por Pedro Barbosa

Em 1984 o Nápoles acabou a época a salvar-se da descida apenas na última jornada. Era uma equipa fraca, com adeptos enraivecidos e uma direcção desmotivada. Poucos imaginariam que estava nesse dia a nascer uma das equipas italianas mais excitantes de todos os tempos e uma das melhores equipas dos anos 80. É que foi nesse dia que a equipa do sul da Itália decidiu ir buscar Diego Maradona ao Barcelona. E tudo o argentino mudou.
Em 1986, o Nápoles tinha 2 taças de Itália no seu palmarés e nada mais! A Serie A era dominada pela Juventus de Platini/Boniek e pelo Milan de Gullit/Basten/Rijkaard. Nesse ano, as coisas mudaram e depois de Maradona conquistar quase sozinho o Mundial do México e se tornar uma lenda, achou que devia fazer o mesmo na sua equipa, que nem nas competições europeias estava inserida. 86/87 torna-se um ano mítico para o Nápoles, conquistando a sua primeira Serie A com uma equipa formada por 10 italianos + Maradona. Nos transalpinos jogavam ainda Bruno Giordano, Ciro Ferrara e Garella, o guarda-redes. A partir daí, foi sempre a subir: o clube contratou os brasileiros Alemão e Careca, viu Zola integrar a equipa principal e tornou-se uma das equipas mais fascinantes dos anos 80. Venceriam, até 1990, outra Serie A, uma Taça Uefa e duas Taças de Itália. De um clube sem palmarés até se tornar uma das equipas mais respeitadas da Europa, foi o caminho do Nápoles.
Tacticamente a equipa teve duas fases, uma com Bianchi no comando e outra com Bigon, mas a cultura napolitana não diferia muito: eram uma equipa partida, onde os defesas só defendiam e os avançados só atacavam. Depois de recuperar a bola, normalmente em zonas recuadas no terreno, os napolitanos soltavam-na para a dupla Maradona/Careca, responsável por momentos maravilhosos em frente à baliza. A História encarregou-se de acabar com o mito como o tinha começado, com um Mundial de futebol. Depois de se ter tornado uma lenda no México ‘86, Maradona foi arrasado depois do Itália ‘90 com acusações de infidelidade, abuso de drogas e uma suspensão de 15 meses. O maravilhoso Nápoles terminava aí e só 20 anos depois haveria de se reerguer.
Por Pedro Barbosa
Duas noites a respirar e a viver (do) futebol, mais dois serões vividos com prazer e euforia, mas com similares doses de dúvida e angústia. Ser obrigado a desperdiçar tempo útil de um PSG – Barcelona ou de um Bayern Munique – Juventus não é algo lá muito agradável de se fazer, e não fosse a oportunidade de poder «deitar» repetidas - ainda que não inteiramente consistentes - visualizações a qualquer um dos jogos, bem me tornaria capaz de, raivosamente, arrancar uns quantos cabelos.
No entanto, e não passando grande «cavaco» ao desespero, lá foi possível «beber» um pouco mais do já típico tiki-taka catalão, das investidas atacantes vertiginosas dos parisienses de Ancelotti, assim como da intensidade e criatividade dos alemães de Munique ou da acalmia e serenidade (em excesso) da Vecchia Signora do futebol italiano.
E como valeram a pena as horas ganhas com tais espectáculos.
De Paris, por exemplo, fez-se luz sobre uma fantástica partida de futebol entre o novo-riquismo francês e a incomparável e colossal marca da Catalunha. À já conhecida aptidão para guardar a bola como ninguém por parte dos espanhóis, restaria – e de forma tão conveniente – aos franceses ripostar através de uma boa organização para, em seguida, e alicerçada na fantástica qualidade de passe de Beckham, tornar a saída para o ataque em algo tão ameaçador quanto a posse e movimentações catalãs.
Com todos estes condimentos, ganharam-se dois jogões. Não só o findo, apimentado por quatro golos e um sem número de peripécias, mas seguramente, o da segunda-mão, jogada já na próxima quarta-feira em Camp Nou, e que poderá muito bem, não contar com Messi – isto, para além da ausência confirmada de Mascherano. Do lado oposto, e como se necessária fosse a partida da última terça-feira, ficam duas certezas: a falta brutal que Matuidi fará em Barcelona, mas também a falta de andamento de David Beckham para eventos desta intensidade. Em contraponto, é fantástico ver jogar Verrati, que, ou muito me engano, poderá ser peça essencial dos franceses daqui a uma semana.
Enorme partida decorreu também na Baviera, onde reside, em meu entender, a mais excitante equipa de futebol da actualidade: o Bayern de Munique. Como é incrivelmente bom ver actuar Robben, Schweinsteiger, Lahm, Kroos ou Ribery… Tão bom que chega a ser cansativo assistir aos níveis de intensidade colocados em campo por estes e outros atletas de renome global e que luxuosamente podem, em algumas ocasiões, compor o banco de suplentes do conjunto de Heynckes.
A diferença de dois golos conseguida diante de uma letárgica e assustada Juventus (talvez assim tenha ficado perante o caudal dos de Munique) parece ser suficiente para uma gestão eficaz a estabelecer na próxima semana. As portas das meias-finais abrem-se decisivamente para os alemães, que se assumem, não só, como os mais que previsíveis campeões locais, mas igualmente, como um dos enormes favoritos à conquista final desta Liga dos Campeões.
Reconhecendo neste Bayern uma força capaz e demolidora, não posso, contudo, de juntar uma outra equipa alemã ao rol dos três mais fortes candidatos a uma vitória final: o Borussia, de Klopp. Fantástica demonstração de carácter dos bicampeões alemães em Málaga, terreno fértil em surpresas não muito agradáveis para as equipas visitantes – que o diga Vítor Pereira e o seu FC Porto. Decidi, aliás, acompanhar a par e passo as ocorrências no La Rosaleda, temendo que de Madrid não viesse grande novidade, e apesar do nulo, em nada poderei ter ficado defraudado.
Perante um Málaga pujante, pressionante, mas que foi abrindo algumas brechas entre o meio campo e a defesa, os diabos Gotze, Lewandowski e Reus foram explanando combinações e jogadas que fomentaram o pânico e que só não se traduziram em golo por obra e graça de Caballero.
Por outro lado, foi óptimo poder contemplar uma vez mais, as investidas em forma de veludo que saíam dos pés de Isco, as cavalgadas de Gamez e Joaquin pela lateral direita malaguenha, ou ainda, a incansável e utilíssima labuta do ex-leiriense (!) Iturra. A ausência deste último na partida da 2.ª mão poderá ser, alias, fundamental para as aspirações andaluzes, que não têm no seu plantel, quem tão bem faça o que faz o chileno que ainda há um ano se arrastava pelo desconhecido em Portugal. E é contando com esta ausência, com a lentidão dos defesas espanhóis, mas sobretudo com o resultado desta primeira mão, que se poderá antever um Málaga de bloco baixo em Dortmund.
Crente na rapidez e segurança dos homens da frente estará Pellegrini, um dos grandes treinadores da actualidade, mas que só muito surpreendentemente não acabará por abandonar a prova já na próxima semana. Do outro lado estarão Jurgen Klopp e uma equipa de posse, coesa mas igualmente mortífera no ataque. Com Gundogan a municiar os sprinters mais avançados, poucas serão as hipóteses castelhanas para seguir em frente, mas veremos, pois em surpresas foi pródiga a edição anterior da prova.
Abordando acontecimentos inesperados, é impossível passar em claro o trio de golos com que o Real Madrid simplesmente despachou o Galatasaray, da «raposa» Terim. Ironicamente, claro, pareceu demasiado óbvia a assumpção de poder e capacidade de Ronaldo, Ozil e companhia, perante Drogba, Snjeider e Yilmaz, nitidamente a mais numa equipa que tanto porfiou mas que pouco ou nada alcançou.
Com o concludente resultado de ontem, parece (quase) encaixada a qualificação dos merengues de Mourinho, assim como a revelação daquele que será, quiçá, o mais poderoso dos pretendentes a um triunfo final.
Por Francisco Esteves

O Bayern Munique é hoje um gigante mundial nem sempre bem compreendido. Com “apenas” uma vitória e um segundo lugar desde 2000, os mais novos poderão achar incompreensível que este seja um dos maiores clubes do mundo. Se o é, muito se deve a Udo Lattek e Dettmar Cramer, dois treinadores sensacionais que guiaram a equipa à vitória em 3 Ligas dos Campeões consecutivas. De 1973 até 1976 a Europa do futebol não conheceu outro clube vencedor que não fosse o Bayern de Munique.
Até 1969, a Bundesliga era completamente dominada pelo Borussia Moenchglabach e o Bayern era uma equipa média, sem grandes ambições. Tudo mudou com a chegada de Udo Lattek e o nascimento de figuras históricas na academia de Munique, devidamente aproveitadas pelo timoneiro alemão. Quando partiu para a Liga dos Campeões de 1973/74, o já campeão alemão contava com figuras como Beckenbauer, Sepp Maier, Hoeness, Gerd Mueller e Rummenigge, o quinteto magnífico que seria responsável pelo Mundial que a Alemanha venceria em casa, nesse mesmo ano. Era uma equipa a todos os títulos extraordinária e tinha como missão travar a hegemonia do Ajax (que trazia 3 Champions seguidas) de Cruyff, Neskeens e Michels. E só eles o poderiam ter feito, na época.
Em 1974 o Bayern bateu o Atlético de Madrid por 4-0, em 1975 foi o Leeds United por 2-0 e 1976 o Saint-Étienne por 1-0. Sempre contra equipas de diferentes culturas futebolísticas e um denominador comum: nunca sofreram golos numa final. Curiosamente, se retirarmos Beckenbauer da equação, este Bayern comportava-se em tudo de forma diferente do futebol da época: não actuava como um bloco, a linha defensiva era baixa e não recorria muito às faixas do campo, provavelmente porque a sua referência de ataque era Mueller, o pequeno bombardeiro alemão, mais conhecido pela velocidade e instinto apuradíssimo. Foi assim que o Bayern conquistou 3 Ligas dos Campeões seguidas e que criou o mito alemão da raça e cinismo, opondo-se à magia e liberdade holandesas.
Por Pedro Barbosa (@pedromsb)

Por Pedro Barbosa @pedromsb)
Atenas, 18 de Maio de 1994. O Mundial dos Estados Unidos estava a chegar e na Europa só faltava disputar mais um jogo, o da final da Liga dos Campeões entre Milan e Barcelona. Apesar do encontro ser entre duas equipas históricas no panorama mundial, poucos achavam que o Milan teria a mais pequena hipótese contra um Barcelona todo-o-poderoso (à imagem do de hoje), treinador por Crujff e com jogadores como Romário, Guardiola, Laudrup, Stoichkov e Koeman. O mundo do futebol aprendeu, no entanto, uma lição que poucos esqueceram.
No ano anterior o Milan tinha perdido com o Marselha e Fabio Cappelo, o treinador, tinha perdido o tridente holandês que havia dominado o futebol (Rijkaard, Gullit e van Basten). Chegar à final, nestas condições, era já um prémio, especialmente quando pela frente estava o dream team catalão. Só que o futebol tem os seus encantos e as lendas nascem nos momentos mais imprevisíveis, como aquela quente noite de Maio. Com uma equipa recheada de jovens jogadores, o Milan deu um festival de futebol e Capello um enorme banho táctico a Crujff, que de tão confiante que estava decidiu usar Begiristain em vez de Laudrup. Depois de uma primeira parte equilibrada, o Milan voltou para a segunda parte decidido a fazer história. E fê-la: 4-0 foi o resultado final que deixou o mundo boquiaberto e fez nascer algumas lendas que ainda hoje são recordadas com carinho, como Maldini, Desailly, Boban, Savicevic e Albertini. No ano seguinte o Milan voltaria à final mas provou do seu próprio veneno e perdeu para um jovem treinador apostado em devolver a glória ao Ajax.
Como se comportava tacticamente este Milan: no ataque era uma equipa extraordinária, com Massaro fixo na frente (fez 2 golos, depois de roubar o lugar a Papin e Lentini) e o duo Boban/Savicevic que, embora não fossem extremos, alargavam bastante o jogo, numa movimentação rara na época para dois médios ofensivos. Quando em posse de bola, o Milan era ultra-rápido a chegar à baliza adversária e fazia-o com tensão, variando a distribuição de jogo e os meios de ataque entre cruzamentos, passes nas costas e remates frontais. Quando não tinha posse de bola, Desailly, Albertini e Donadoni faziam de tudo para anular o meio-campo catalão, em especial o francês, que fez naquela noite o jogo da sua vida, coroado com um golo. A defesa era seguríssima, pouco dada a riscos desnecessários e foi a mesma da selecção italiana no Mundial que se seguiria: Baresi (que falhou a final, jogando Galli), Tassotti, Pannuci e Maldini, com o mítico Sebastiano Rossi na baliza.

André Leão é um médio extraordinário a quem começa a ser reconhecida, finalmente, a enorme qualidade que apresenta. Aos 27 anos está no pico da sua carreira e é uma das principais razões para a extraordinária candidatura do Paços de Ferreira à Liga dos Campeões. Se este ano, por si só, justifica uma menção (mais do que) honrosa para o médio dos castores, o que dizer depois da última actuação de Portugal em Israel? É este o meu argumento: Leão é, hoje por hoje, um exemplo perfeito da distância entre o futebol português e, por exemplo, o espanhol.
Confesso que me causa uma grande estranheza a ausência de Leão nos (pré-)convocados para a equipa das quinas. Para além da enorme valia e da grande época, há a considerar a insuficiência física de Moutinho, a falta de rodagem de Carlos Martins e as péssimas exibições de Veloso. No meio de tudo isto, não há espaço para o André? Em Espanha, o jogador da moda (num meio-campo com Xavi, Xabi, Iniesta, Cesc…) é Beñat, do modesto Bétis. Lallana foi convocado para a selecção inglesa face ao mau momento de Carrick e Parker. Em Portugal continuamos a preterir jogadores em função dos clubes onde actuam, independentemente da maior crise de lesões ou inspiração que possa existir.
A mentalidade futebolística nacional continua a preferir recorrer a um jogador acomodado de um clube grande do que a outro, trabalhador incansável e ambicioso, de um clube de menor dimensão. Mesmo quando o clube em causa ameaça uma presença na competição mais importante do mundo de clubes e está a 15 pontos de diferença de um dos grandes. E apesar deste ser um texto sobre o André, ele é sobretudo sobre uma das razões para o estado caótico constante em que nos encontramos sempre que está em causa um apuramento.
Por Pedro Barbosa
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